TOPTEN DISCOS 2010

10 – THE MORNING BENDERS, “BIG ECHO” – Depois de um primeiro álbum pouco comentado, os Morning Benders – banda de Berkeley, California – destacaram-se no início de 2010 por trazer uma espécie de “dream folk” com toques lo-fi, mas bem redondinho. A referência óbvia é o Grizzly Bear, para quem abriram shows e “Veckatimest”, possivelmente o melhor álbum de rock de 2009, parece ressoar no fundo o tempo inteiro. Em outras brevíssimas incursões (em especial “All day daylight”) a banda remete a My Morning Jacket. Com seus próprios toques, o The Morning Benders segue com qualidade esse trajeto, brindando-nos com ótimas canções como “Excuses” e “Promisse”.

 

9 – BEACH HOUSE, “TEEN DREAM” – Último a fazer parte desse top, desbancando em especial os favoritos The Prids e Blonde Redhead, o Beach House parece, a rigor, uma versão ainda melhor acabada dos Fleet Foxes. Assim como ela, bebe igualmente no folk do Crosby, Stills & Nash e capricha em vocais perfeitos, arranjos doces e uma certa melancolia sem pieguice. Duo composto pela francesa Victoria Legrand e Alex Scally, a banda também investe no “dream pop” que pode ter como referências desde Wilco e My Morning Jacket até o Mercury Rev e Flaming Lips. O disco se passa numa paz pastoril, como se tivesse em si mesmo o eco das montanhas se misturasse a suaves ruídos eletrônicos, em camadas e mais camadas de suave tristeza.

8 – GIRLS, “BROKEN DREAMS CLUB” (EP) – Dono de um dos melhores álbuns do ano passado (“Album”), o Girls retorna em EP sintético, mas marcante. Para além do lo-fi que revivia o clima da surf music anos 50 nos EUA (quando rock e surf ainda não estavam separados, antes bebiam dos mesmos ventos californianos) e dos ecos elétricos do Jesus and Mary Chain (banda de inacreditável influência na primeira década dos anos 2000), algo a mais parece estar presente aqui, ainda que de forma tateante. Se bem que o Girls continue com seu talento e ousadia fascinante em se tratando de letras (ouça-se, por exemplo, “Laura”, do ano passado, e “Substance”, desse EP), há um sinal de uma passagem sonora mais vibrante e rica, marcada pela presença de algo eletrônico e uma lisergia um pouco mais atordoante. “Carolina” é a síntese perfeita de tudo isso, e certamente é o melhor Girls até agora vindo a público.

7 – ARCADE FIRE, “THE SUBURBS” – Muita coisa foi dita sobre esse álbum. Algumas coisas realmente bacanas, outras que só se explicam – sei lá – pela má alimentação do sujeito, excesso de drogas ou vontade de aparecer (refiro-me a certas comparações cretinas). O fato é que o Arcade Fire é das melhores bandas surgidas nos anos 2000, mas tem que penar ainda um pouquinho para entrar no seleto clube dos clássicos. “The Suburbs”, entretanto, é fantástico, e – paradoxalmente – apesar de ser o mais longo (até longo demais, para alguns), é seguramente o mais acessível dos três álbuns da banda. Com momentos belíssimos (em especial “Modern Man”, “Month of May”, “Half Light II”, entre outros), o Arcade Fire continua a caminhada ereta no seu estilo barroco, sendo – daquelas fortemente comentadas pelo mainstream – certamente a mais provocativa das bandas dos anos 2000.

6 – THE NATIONAL, “HIGH VIOLET” – Serei honesto: quando ouvi esse disco pelas duas ou três primeiras vezes, o impacto foi tão arrebatador que tinha certeza sobre sua posição no topo desse ranking. E, no entanto, não está. Quem mudou: eu ou o “High Violet”? Não sei. Apesar de ter perdido parte da sua força, o The National continua marcante na sincera emocionalidade que tonifica suas canções, fazendo-as parecer incrivelmente apaixonadas sem soarem piegas ou cafonas. Com seu estilo estou-aqui-sozinho-e-triste-à-meia-noite-num-bar-de-Nova-York-com-whisky-e-cigarros, é inevitável ao The National arrebatar as pessoas que ainda têm um pouco de coração (mas que também não choram com o Robyn Williams). Sei lá, talvez o The National seja para os EUA um pouco como os Los Hermanos por aqui: caras que assumem o status de loser rindo dele, transformando-o em algo mais digno, humano e saudável que, digamos, ser winner. Ouçam “Bloodbuzz Ohio” e descubram.


5 – THE BLACK KEYS, “BROTHERS” – Pouco tenho a acrescentar a esse petardo sonoro que compõem 90% das listas de rock do ano. Possivelmente “Brothers” tem tudo que é necessário para um belo álbum de rrrrrrrock, isto é, um bom ritmo, bom instrumental, bons refrões, bons arranjos, boas melodias e assim por diante. Assim, sem maiores delongas: é um som pouco “elaborado” no sentido intelectual, mas contagiante, marcante, forte, bem típico das raízes mais básicas do rock, em especial o blues. Para quem gosta de uma boa batida, é o suficiente. Back to basics.

4 – BLACK MOUNTAIN, “WILDERNESS HEART” – Teve um pequeno tempo na década que se passou em que o “revival” no rock se tornou explícito: Strokes reviviam Television e Velvet Underground; Libertines, os Beatles e Clash; The Rapture, Gang of Four; Interpol, Joy Division e assim por diante. Teve até espaço para porcarias e coisinhas fracas como She Wants Revenge (Bauhaus) e Klaxons (os “ravers” do início da década de 90). Nessa época, uma bandeca de meia tigela chamada Wolfmother quis ser o novo Black Sabbath. Claro que não funcionou. O Wolfmother foi só um Sabbath ruim, nada mais. Essa missão acabou ficando com a banda canadense Black Mountain, que depois do brilhante “In the Future” (2008), atualiza o hard rock setentista (no mais fino: Black Sabbath e Led Zeppelin) para os nossos dias, limando os elementos que o punk erradicou (solos grandiloquentes e assim por diante) e fazendo canções da mais plena qualidade. Pesado, denso, mas contemporâneo, o Black Mountain faz a perfeita e inimaginável cruza entre hard e indie rock, trazendo para si o melhor dos estilos. “Roller Coaster” é a imagem disso. A criatividade e ousadia de usar riffs clássicos, teclados improváveis e aproveitar seu duo vocal faz do Black Mountain uma das preciosidades de 2010.

3 – ANAIS MITCHELL, “HADESTOWN” – Muita gente fica, com certa razão, preocupada com os períodos de escassez criativa no rock. Dá impressão de que acabou. Em meia a essa história, não raro cantoras esquisitas e bandas bizarras ocupam o espaço da “vanguarda”. Foi o caso da Joanna Newson. Com todo respeito, não consigo perceber ONDE está a coisa boa da Joanna Newson. É demais para mim. Mas Anaïs Mitchell não é. Sem a afetação da colega e com muito talento vocal, Anaïs constrói um mosaico precioso em “Hadestown”. Esse belíssimo álbum de “folk opera” é aventura conceitual pelo mundo do deus Hades, um dos principais da mitologia grega, trazendo personagens fundamentais como Perséfone, Orfeu, Eurídice e outros. Com deliciosas narrativas e interpretações impressionantes de gente como Justin Vernon (Bon Iver), inevitável reconhecer que estamos aqui bem próximos a uma obra-prima.

2 – DEERHUNTER, “HALCYON DIGEST” – Bradford Cox – o Mr. Deerhunter (mas também Mr. Atlas Sound, p.ex.) – tem o mau hábito de frequentar o topo das minhas listas. Talvez por que o Deerhunter de “Microcastle” (2008) e esse “Halcyon Digest” traduza algo que eu sempre procurei: um pop extremamente psicodélico, que sintetize tendências dissonantes (mas combináveis) como My Bloody Valentine, Mercury Rev, entre outros. Não é qualquer um o cara que faz uma música de nome “Adorno“. Em todo caso, “Halcyon Digest” é ligeiramente menos brilhante que “Microcastle”, mas é um álbum memorável, belíssimo, profundo, desses para se ouvir no fone de ouvido e dar uma delirada para sair do mundo cruel e cretino em que vivemos. “Desire Lines” e “Helicopter” são as duas pérolas mais preciosas dessa caixa de jóias.


1 – THE RADIO DEPT, “CLINGING TO A SCHEME” – É incrível como esse álbum começou, aos meus ouvidos, inofensivo, e foi aos poucos tomando conta de uma forma avassaladora. Se no início era apenas um álbum de uma banda bacana entre outras legais da Suécia, com o tempo ele foi ganhando intensidade até o ponto de se tornar viciante. Não conseguia ouvir outra coisa. Não sei se foi a frase de Thurston Moore tirada de um documentário (“I think we should destroy the bogus capitalist process that’s destroying youth culture“) que me fez despertar para eles, mas algo fez.

Em termos de novidade, o The Radio Dept pouco muda em relação aos seus álbuns anteriores. Mas “Clinging to a scheme” é o primeiro dessa lista por uma única razão: melodias. Nenhum álbum é tão competente em fazer melodias quanto esse. Dá para cravar tranquilamente no som do Radio Dept a etiqueta POP sem ter medo de com isso compará-lo com Britney Spears. É outra coisa. A leve psicodelia que irriga as canções coloca a banda, como outras desse top (e, portanto, denunciando algo do seu escriba) na prateleira do “dream pop”, esse ritmo nascido na esteira do My Bloody Valentine e especialmente do Cocteau Twins. Mas, se tivesse que destacar algo, destacaria isso simplesmente: melodias. Embora sem obras-primas, 2010 termina com um belo álbum para coroar um belo ano.

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5 respostas em “TOPTEN DISCOS 2010

  1. NUNCA compreendi a tua rinha com o Wolfmother: o disco inicial deles soa como uma mistura certeira de Sabbath x Punk e eu AMO tanto Sabbath quanto o Punk (como um todo) para FIAR a qualidade.

    O primeiro disco do Black Mountain me agradou, mas algumas musicas me deixaram aborrecido, sinceramente. Tanto que nunca mais procurei com entusiasmo nada da banda. Veremos ESSE, entao, com essa GENIAL capa.

    Quanto aos Black Keyes, nao precisa PEDIR DESCULPA pela falta de “intelectualidade” no disco, ok?

    A resenha do disco do Girls me EMPOLGOU, ficou primorosa, daquelas que faz o cara baixar o disco sem recorrer a youtubes antes.

    Me excedi nas linhas do comment, enfim. Estava com saudades.

    PS: Faz que nem eu: blog no wordpress, compra um dominio depois para redirecionar o host (moyses…PONTO COM, ou algo do tipo). Facilitaria o MERCHAN 😀

  2. finalmente, um assunto do qual eu tenho a pretensão de manjar um pouco.
    10 – já torci o nariz. Como pode remeter a “My Morning Jacket”? Só se pode remeter a algo existente. E MMJ não existe, definitivamente.
    9- nova remessa ao MMJ. só posso supor que eles sejam os novos Beatles.
    8- J & MC? “inacreditável influência”? tá maluco?
    7- Arcade Fire, “uma das melhores dos anos 2000”? “penar UM POUQUINHO” para virar CLÁSSICO? pára o mundo que eu quero descer!!!
    6- tô começando a achar que a Kátia B vai ganhar esse ranking de novo…não conheço nenhuma das bandas. Mas a atmosfera “sozinho-NY-whisky-crivo” me anima a cogitar escutar UMA canção dessa banda…pra depois, muito provavelmente, deletá-la da mente.
    5- finalmente algo que preste. Ouvi os tais Black Keys (nome de merda) por acidente e curti. Taí a explicação – “back to basics”. O mais difícil é ser básico.
    4- tá melhorando…será coincidência que as posições no ranking aumentem proporcionalmente à qualidade das bandas? é tudo Black alguma coisa…mas rock básico e hard rock já são bem melhores que subWilcos. O foda é essa mistura com indie rock…odeio indie rock.
    3- fodeu de vez. taí a Kátia B do momento. Folk opera? Sai de mim, chulé! Perséfone? Eurídice? Queisso? Pensei que era um ranking de bandas.
    2- Desire Lines é um nome bem melhor que Adorno. E desse caçador de veados, pelo menos, eu já ouvi falar.
    1- Finalmente, fechamos com…uma banda SUECA. A única coisa que realmente surgiu de interessante na Suécia até hoje foi o futebol de Thomas Brolin e a sede de divulgação de Julian Assange. Fora as MINA. A aludida ‘psicodelia’ deve estar por aí…esperando…
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    o divertido é ser chato.
    desculpa meu excessivo rigor para avaliar as tuas idiossincráticas escolhas.
    continue fazendo rankings para que possamos destruí-los.
    um abraço

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