OPEN SOURCE, POLÍTICA E ECONOMIA PARA O SÉCULO XXI

Os movimentos de 2011 têm indicado um esgotamento das duas formações fundamentais que a Modernidade nos legou: o Estado e o capitalismo. É verdade que essa frase pode parecer muito vaga e talvez arriscada, pois se está tocando em duas placas tectônicas do nosso mundo, mas parece que ambos processos estão chegando a um momento de esgotamento, ainda que ele não se faça visível a todos.

Mais do que nunca, o Estado está à beira da falência. Não apenas falência econômica, pois sabemos que a próxima grande crise está relacionada às dívidas públicas contraídas para salvar banqueiros e evitar o colapso geral do sistema, mas uma falência no sentido do reconhecimento de dar conta das próprias demandas que estão sendo ventiladas. Poder Executivo e Legislativo estão amarrados a uma estrutura corrupta (lícita e ilícita) que envolve financiamento de campanha e círculos viciosos em que não raro os agentes trabalham apenas para se conservarem e reproduzirem. Por outro lado, mesmo aqueles que desejam mudanças se sentem esmagados pela pressão colossal que emana de uma estrutura aparentemente invencível, seja pela estabilidade com que essas máfias se apropriaram do espaço público, seja pela ausência de alternativas por dentro capazes de reverter significamente o quadro geral. Isso sem mencionar a própria “globalização”, isto é, internacionalização dos mercados, que leva a uma pressão externa capaz de abalroar qualquer projeto alternativo à “ortodoxia” econômica que, na prática, é apenas uma doxa para manter bem ricos os poderosos. Por fim, o Poder Judiciário também vê mais do que nunca a insustentabilidade da sua expansão, o malefício mortífero da burocratização dos conflitos humanos e a tentativa frustrada de incorporar o papel de transformador social em instituições que são compostas majoritariamente por agentes conservadores.

A descrença na burocracia pública e no Estado central é generalizada.

De outro lado, o “capitalismo”, para ser mais específico esse sistema baseado na economia de mercado que hoje é sustentado por um aparato técnico-industrial movido pela demanda de consumo igualmente está em vias de colapso. Em primeiro lugar, porque já se fazem sentir os sintomas sociais de esgotamento psíquico dos sujeitos diante da demanda fetichista do consumo, no processo que Bernard Stiegler descreve como destruição da economia libidinal e Christoph Türcke como o enfraquecimento das conexões neurais que levaram o humano, historicamente, ao pensamento; para ambos autores (e tantos outros), os efeitos colaterais desse processo são gigantescos. Em segundo lugar, mais importante é evidentemente o impacto ecológico desse sistema baseado no consumo e na troca utilitária: mais do que nunca, é evidente a insustentabilidade do crescimento baseado no consumo e da produtividade baseada no domínio aterrador do humano sobre a natureza. O pensamento do século XXI é eminentemente um pensamento ecológico, pois se preocupar com a ecologia é hoje em dia pensar o fim do mundo que se avizinha a continuarmos nos mesmos trilhos.

Horizonte parece sinistro, não fosse o fato de que podemos igualmente ver transformações práticas no mundo. Não apenas pelos movimentos sociais 2.0, pela juventude que reivindica a construção de uma nova forma-de-vida não-burocrática e ecologicamente viável, mas pela própria dinâmica interna da produção das relações humanas. Nesse sentido, o capitalismo não foi invenção de Adam Smith, mas um fenômeno que foi se produzindo gradualmente até ganhar seu aparato teórico. Da mesma forma, a Open Source – baseada na economia contributiva, no renascimento da dádiva e na descentralização como princípio – pode ser um pharmakon terapêutico para um novo modelo político e econômico. Político, pensando-se na possibilidade anarquista do fim do Estado burocrático centralizado, péssima invenção recente e hoje totalmente naturalizada. Econômico, se pensarmos na possibilidade de circulação de valor sem que necessariamente isso corresponda a uma troca simétrica, isto é, a dinheiro. Tudo isso não está sendo produzido por intelectuais anticapitalistas de esquerda, mas pelo próprio fluxo de relações espontâneas que vão surgindo nesse século que apenas está começando.

CONVITE PARA EVENTO NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA

Seminário “Por que ler…?”

O Grupo de Pesquisas Materialismos – Correlacionismo, Ontologia e Ciência na Filosofia Contemporânea, convida para o evento:

Seminário “Por que ler…?”

dia 2/12 – das 14 às 19h – auditório térreo do prédio 05

Se é importante para todas as disciplinas, o diálogo transdisciplinar parece ainda mais crucial para a filosofia, na medida em seu material de reflexão consiste, em grande parte, naquilo que se produz em diferentes áreas do conhecimento. A precondição para um tal debate é, contudo, que se admita que ele não apenas não pode ser unívoco (no sentido em que caberia ou à filosofia ou às ciências autocraticamente definir os termos da conversação), como não tem uma forma pré-definida. É da própria natureza do diálogo que ele esteja aberto à inovação e à pluralidade de perspectivas, se quer-se superar a imagem reificada que o positivismo oferece do conhecimento filosófico e científico.

O seminário “Por que ler…?” busca estabelecer um tal diálogo, apresentando pensadores de diferentes áreas do conhecimento que propuseram possíveis diálogos produtivos entre filosofia e ciências.

 Programa:

Por que ler Roy Bhaskar?

Charles Borges ( Mestrando, PUCRS)

Por que ler Gabriel Tarde?

Federico Testa (Mestrando, PUCRS)

Por que ler Francisco Varela?

Victor Ximenes Marques (Doutorando, PUCRS)

Por que ler Bernard Stiegler?

Moysés Pinto Neto (Doutorando, PUCRS)

Por que ler Gilbert Simondon?

Rodrigo Nunes (Pós-Doutorando, PUCRS)

Roy Bhaskar (1944) é o fundador e um dos principais expoentes do realismo critico, uma abordagem da filosofia e das ciências sociais que, em oposição ao positivismo e à filosofia hermenêutica, sustenta duas teses principais: a de que existe uma metodologia própria para investigar as sociedades das práticas humanas (ou seja, que é um erro importar o método “positivo” para as ciências humanas) e, por outro lado, a tese da autonomia e objetividade dos fenômenos sociológicos (ou seja, que as estruturas sociais, ainda que sejam constituídas por atividades interpretativas intersubjetivas, podem e devem ser analisadas através de um método que não reduplique a “interpretação”). Sua estratégia empregada por Bhaskar consiste em distinguir os domínios ontológico e epistemológico em que se aplica o conhecimento humano para, a partir daí, traçar a divisão entre o “intransitivo” (próprio das ciências naturais) e o “transitivo” (próprio das ciências sociais) e fixar uma metodologia específica para abordar os fenômenos sociológicos.

Gabriel Tarde (1843-1904) foi um dos mais célebres pensadores franceses do século XIX, estando na origem das ciências sociais nesse contexto. Investindo na associação produtiva entre filosofia e ciências sociais na formulação de hipóteses e conceitos, seu pensamento confere máxima importância a noções-chave como a de “diferença”, “variação universal” e “possessão”. Partindo da hipótese de que “existir é diferir”, Tarde encontra a diferença e a multiplicidade mesmo naquilo que era visto como mais ínfimo e homogêneo, levando à máxima potência a noção leibniziana do infinitesimal e do compósito. Substitui as entidades pelas relações, o que, no plano da ontologia, sinaliza-nos a proposta de substituição de uma “metafísica do ser” para uma do “haver”. Esquecido por muitos anos de forma aparentemente inexplicável, é recentemente, a partir de Milet, Deleuze e Guattari, Lazzarato, Latour e outros, que esse pensador do singular, da exceção, da repetição e da imitação volta a ser discutido, e esse pensamento da diferença volta pulsar em sua potência renovadora.

Bernard Stiegler (1952), filósofo francês em plena atividade, reequaciona temas como a ontologia dos sistemas técnicos, o déficit de origem do humano, a relação entre humano e a técnica e investiga a destruição gradual do espírito do capitalismo, a economia libidinal do consumerismo e a emergência da economia contributiva. Apoiado em autores como o Gilbert Simondon, Bertrand Gille, Leroi-Gourhan, Sigmund Freud, Jacques Derrida, Edmund Husserl, Martin Heidegger, Gilles Deleuze, Max Weber, Karl Marx e outros, Stiegler promove um debate realmente interdisciplinar que convoca a filosofia a um pensar complexo acerca da contemporaneidade.

Em 2011 completa-se 10 anos do precoce falecimento do biólogo chileno Francisco Varela (1946-2001). Ainda hoje o trabalho de Varela continua a exercer influência crescente nas pesquisas em teoria de sistemas autônomos, neurociências, ciências cognitivas, filosofia da mente, vida artificial e inteligência artificial. Mais conhecido por sua caracterização dos organismos vivos como sistemas autopoiéticos, desenvolvida em conjunto com Humberto Maturana, Varela foi também o pioneiro da abordagem enativa para compreender a cognição, como alternativa ao computacionalismo/representacionalismo ainda predominante. As ideias de Varela a respeito de emergência, circularidade e auto-referência abrem espaço para um naturalismo não-reducionista e oferecem um modelo para um diálogo frutífero, mutuamente enriquecedor, entre filosofia e ciência.

Gilbert Simondon (1924-1989) é, por excelência, o pensador da individuação – problema que, visto por ele a partir dos conhecimentos da biologia e da física contemporâneas, lança um desafio à tradição filosófica. Pensá-lo implica tornar o conhecimento dos indivíduos (como produto) uma região do pensamento de seu processo de produção, cujo objeto é o pré-individual, a fim de atentar à ontogênese em si mesma: ao invés de guiada por um princípio externo e tendente à identidade com o indivíduo formado e estável, a individuação aparece aí como processo permanente, múltiplo, de resolução de estados metastáveis. De onde a necessidade de substituir-se à noção de forma aquela de informação e de questionar a distinção entre interioridade e exterioridade; e, ainda, de reconsiderar a epistemologia e a fronteira que a separaria da ontologia – abrindo a questão de um devir histórico e transindividual do saber, e de uma primazia da relação indivíduo-meio que reinscreve o pensamento em um sistema dinâmico. Relegado por anos a uma relativa obscuridade, o desafio simondoniano foi redescoberto recentemente, por conta de sua influência sobre autores como Gilles Deleuze e Bernard Stiegler.

PROVA DA OAB E ENSINO JURÍDICO

A retórica da crise é banal e se aproxima facilmente do clichê. Porque nada é estável, porque as coisas não se solidificam jamais integralmente, é sempre possível ver crises em tudo. Isso é positivo, pois também é a chance da transformação. A desconstrução é também o início da reconstrução, sem que isso signifique cair em chantagens pragmáticas.

O fato, porém, é que como nunca o direito vive hoje uma crise: tribunais abarrotados, aburguesamento dos seus representantes, ensino desconectado do mundo real, dogmatismo catedrático e incapacidade de reconstrução dos seus próprios fundamentos são alguns dos sintomas que tornam os cursos jurídicos hoje literalmente irrespiráveis. A paisagem desértica dos conteúdos programáticos, preocupados com “dígrafos e encontros consonantais” enquanto a vida lá fora requer justiça, é o retrato da situação de penúria de pensamento que hoje passam as faculdades de direito. A substituição de debates de profundidade por questões de nomenclatura, a criação de mundos fictícios criados ad hoc para legitimar teorias, a confiança irrestrita no Estado e na sua burocracia que hoje é contestada em todos os cantos do mundo nesse 2011 emblemático, tudo faz o direito estar com as vísceras expostas na rua (provavelmente sobre a gravata dos seus “operadores”).

Tarefa ingrata, nesse caso, defender um exame que contribui para a destruição permanente do que poderia ser uma educação jurídica. A proliferação de cursos preparatórios, verdadeira indústria das fórmulas memorizadas e de como o direito não deve ser ensinado (e muito menos aplicado), funcionando em um círculo bem pouco dialético com as provas que cobram leis decoradas (sem levar em consideração, p.ex., que as leis mudam) e com o conteúdo cobrado por extensão, e não por densidade ou correto manuseio, é testemunho da miséria do direito hoje em dia. O resultado é catastrófico: cada vez os “operadores” da máquina kafkiana jurídica estão menos preparados, cada vez mais estão na esfera pública falando bobagem sobre tudo, palpitando sobre assuntos sérios, usando a retórica, a doxa, onde o pensamento é necessário. Como o limite do conhecimento jurídico é circunscrito à dogmática e as exames exigem exatamente esse tipo de conhecimento, o jurista pensa que tudo que está fora dos códigos é digno de palpites, como se áreas como a filosofia, antropologia, sociologia e outras tantas simplesmente não existissem. O resultado é um discurso vulgar que repete o senso comum com a pompa arcaica conhecida como “juridiquês”. Culpa de um sistema de ensino – e de uma acomodação pessoal também, por óbvio – que privilegia o superficial, o tecnicismo, o terminologismo em detrimento das questões vitais que estão em jogo. Para isso, não raro é necessário colocar entre parêntesis o mundo real, como se fosse possível substitui-lo por uma alucinação onde tudo está indo perfeitamente bem.

Mas e o outro lado? Infelizmente, percebe-se que as demandas contra o Exame da OAB estão muito mais concentradas em estudantes que querem passar na marra, isto é, sem estudar, do que propriamente naqueles preocupados com a questão do que é ensinado nas faculdades. A proliferação bizarra de cursos jurídicos no Brasil e a falta de densidade científica do curso faz com que ele seja alvo de pessoas completamente indispostas a se questionar e estudar os conteúdos, preferindo o caminho mais fácil do empurrar com a barriga. Não é, obviamente, ao lado desses que se deve estar.

Portanto, diante da terra arrasada que vivenciamos, melhor é aproveitar a chance de contemplar as ruínas e com elas buscar uma reconstrução completa dos cursos jurídicos – abrindo-os para a interdisciplinaridade, libertando os professores do programa disciplinar, repensando os fundamentos do direito – e uma revisão integral da forma como é elaborado o Exame da OAB, tirando-o dessa matriz terrivelmente parva, fazendo dele um exame crítico e reflexivo. Os exemplos estão dados aí: o próprio ENADE é um deles. É possível sim construir outro tipo de prova capaz de privilegiar o senso crítico em detrimento da decoreba. E é isso que a OAB, se está preocupada com a educação jurídica, deveria pensar.

MUITO ALÉM DA CORRUPÇÃO

Amanhã vamos para a rua protestar contra tudo que acharmos melhor protestar. Em vez de bandeiras específicas, a pluralidade e a polifonia. Sem polaridade entre grande e pequeno: tudo é forma-de-vida, e queremos viver melhor. Em vez da política burocrática que nos acostumamos a conviver, com seus conchavos, lobbies e negociatas, a política no seu sentido vital, fundamental, daquilo que define nossa própria forma de viver esse mundo. Por isso, não vamos aceitar que as instituições que nos governam – midiáticas, governamentais ou quase isso – capturem nossas demandas pelo moralismo rasteiro anticorrupção: queremos muito mais que lacerdismo!
Vamos marcar posição amanhã nesse sentido! Vamos mostrar que os dispositivos midiáticos e as instituições são aquilo contra os quais nos indignamos, e não o que determina quais são nossas bandeiras! Amanhã vamos acordar INDIGNADOS!

DIREITO À INJUSTIÇA

“A horda, cujo nome sem dúvida está presente na organização da Juventude Hitlerista, não é nenhuma recaída na antiga barbárie, mas o triunfo da igualdade repressiva, a realização pelos iguais da igualdade do direito à injustiça” (ADORNO & HORKHEIMER, Dialética do Esclarecimento, p. 27).

Poucos filósofos fizeram uma leitura tão detalhada e multifacetada do fascismo quanto Adorno e Horkheimer. Talvez por terem vivido na carne a experiência na sua última potência, sua leitura é tão penetrante e precisa que deveria ter irrigado rios de trabalhos na reconstrução dos conceitos de democracia, sujeito, civilização e assim por diante. Essa passagem especificamente é tão diretamente nevrálgica, toca com tanta precisão o ponto central do problema, que é impossível deixar de mencioná-la.

Por que a filosofia política liberal – hegemônica desde o século XVIII – não conseguiu formar indivíduos liberais? Por que não temos o “bom senso” e a “razoabilidade” que os indivíduos contratantes do contrato social supostamente teriam? Por que não somos tolerantes e abertos, como o liberal que Rorty trata como paradigma do “melhor modelo que temos à disposição”, do “mais apto a abrir novas janelas”?  Hoje temos no mundo jurídico, por exemplo, o garantismo desesperado gritando: “ei, vamos pelo menos cumprir as regras que estabelecemos, não queremos transformações ou rupturas; somos como vocês, só queremos efetivar as regras do jogo”. E, no entanto, há um sonoro e retumbante não ecoando.

Ao tratar o indivíduo como consciência pura, o liberalismo perde de foco o desejo do indivíduo. O fascista não é regrado por pactos racionais, não é educado pela lógica, não precisa mais do que uma razão vulgar para justificar – se é que é preciso justificar – suas ações. O fascista simplesmente tem um desejo de aniquilação da diferença, ele busca a igualdade plena, a uniformização completa, serialização e produção contínua de iguais. O fascismo não pode ter nascido antes da igualdade burguesa-iluminista; no período anterior, havia formas de dominação cruéis, mas não equivalentes ao fascismo. Nenhum dominador antigo ou medieval poderia admitir ser “igual” aos seus súditos; ele era aristocraticamente superior, por isso sua dominação jamais poderia ser uniformizante, a singularidade era elitista. O desejo do fascista é aniquilar toda singularidade.

Quando Benjamin afirma que onde há fascismo é porque uma revolução fracassou está dizendo que há ali um desejo de igualdade que se transforma, como Adorno & Horkheimer mostram na frase introdutória, em igualdade repressiva. Um desejo de justiça é transformado, rapidamente, na sua inversão: generalização da injustiça. É preciso que diante do fracasso da nossa capacidade de viver bem todos vivam mal, é preciso que a mal-sucedida tentativa de felicidade se transforme em infelicidade vitoriosa e geral. Se não podemos viver com singularidade, ou seja, viver, ter experiências, precisamos aniquilar toda experiência, vivendo na plenitude do abstrato que nos comanda de fora, no desejo de submissão, na disciplina que destrói a liberdade.

O fascista não tem apenas uma consciência deturpada; ele é uma consciência que se inverteu para desejar a escravidão. Saturado com a impossibilidade de realizar a felicidade terrena, vinga-se sobre aqueles que ainda a desejam, servindo com isso a um senhor visível ou invisível que lhe dá o anteparo para ação. Há imagem mais representativa disso que o momento em Z, filme de Costa-Gavras, em que brutamontes agarram e socam manifestantes pelo seu desejo de outro mundo mais racional? Não é a própria imagem daquele que luta veemente pela injustiça geral e irrestrita, pela aniquilação da singularidade, pelo abandono da libertação, pela transformação da sociedade em um lugar de medo, disciplina e desespero?

Hoje, as forças policiais espalhadas pelo mundo mais do que nunca representam o instrumento do qual se vale o poder para a manutenção da injustiça. Com poucas exceções, o policial é convictamente o agente que assegura a ordem, ainda que essa ordem seja basicamente o estado de exceção em que vivemos. É preciso que o policial saia desse papel. É preciso que a polícia, enquanto setor composto basicamente de pessoas pobres que são igualmente vítimas da injustiça generalizada, transforme esse desejo de igualdade repressiva por uma desejo de libertação, tal como ocorreu no Egito durante a queda do ditador. Com isso, os poderosos ficarão sem armas, o rei ficará nu, e a chance de superação da ordem injusta em que vivemos finalmente aparecerá.

O NANICO OBAMA

Desde a emergência do conservadorismo no final dos anos 70, os EUA vivem um processo de degradação que agora culmina no arruinamento das instituições democráticas por corporações e lobistas capazes de minar qualquer iniciativa política que os atinja. A sintomatologia social desse processo de corrupção generalizada que se ampliou mundialmente sob o nome “globalização” (na realidade, processo restrito à expansão dos mercados financeiros) fez-se sentir a partir de eventos ultraviolentos que vão desde massacres em escolas, intoxicação crônica, solidão e depressão como formas-de-vida majoritárias, vulgarização extrema da indústria cultural até os próprios atentados terroristas. Antes que acusem esse texto de cair de algum lugar desconhecido do marxismo embolorado dos anos 80, não custa ressaltar que todos esses processos são permeados de tensões, contradições, ambivalências e resistências cuja delimitação não é possível fazer sem escrever muitos textos.

De alguma forma é possível dizer que há algum tempo se fazia sentir um esgotamento geral desse modelo. A hipocrisia e o cinismo como formas discursivas dominantes iam se tornando problemáticas até um nível insuportável. O mundo cada vez mais se transformava em um lugar inóspito e absurdo, e talvez nada representasse isso melhor do que a figura incontroversamente ridícula de George W. Bush. Atacar Bush virou um esporte de tanta facilidade que as críticas perderam um pouco seu sentido. Além de completamente estúpido, o ex-presidente dos EUA representava a mentira no seu estado mais explícito, quase um escárnio em relação ao resto do mundo e aos próprios norte-americanos. Admissão de tortura, guerras imperialistas, rejeição de novos rumos nas políticas ambientais, políticas comportamentais puritanas e defesa de um modelo econômico indiferente à pobreza eram apenas alguns dos pontos que Bush não cansou de repetir à custa de uma repulsa generalizada de gerações que conquistaram o direito de viver em um mundo menos sombrio. E, no entanto, Bush estava aí. Apoiado por grande parte do sistema midiático e pelos setores fascistas ou ultraconservadores da população, emparedava o restante com a chantagem: conservadorismo ou terrorismo, esquerdismo, comunismo, todas essas “ideologias” subversivas e contestatórias ao sagrado american way of life.

O “Yes, we can”, slogan genial de Obama era resposta a tudo isso. Barack Hussein Obama, candidato negro, não-integrante do mainstream político e com nome de difícil deglutição para um imaginário que se acostumou a ver como principais inimigos Saddam Hussein e Osama Bin Laden, apesar de todas as difamações e superando todas as barreiras imagináveis e concretamente executadas, conseguiu eleger-se presidente dos EUA. E o fez mobilizando setores adormecidos diante da hegemonia conservadora, em especial a juventude, usando a internet para doações e disseminando virais com seus discursos efervescentes prometendo mudança. Naquele momento, a partir da bolha dos subprimes que estourou a economia em 2008, via-se uma espécie de possibilidade de ruptura com o ethos conservador instaurado. E esse tipo de ruptura é o que verdadeiramente constitui a política.

Obama, no entanto, não esteve à altura do desafio. Emparedado pelas mesmas forças que ele derrotou nas eleições, gastou todo mandato buscando conciliação com elas, quando foi eleito exatamente para desafiá-las. Hoje mais do que nunca fica claro isso. Os protestos em Wall Street são uma re-efervescência daquelas energias de desejo do novo que elegeram Obama e foram gradualmente jogadas para escanteio pelo mandatário em nome da conciliação. Reabastecidas com a Primavera Árabe e os protestos na Europa e na América Latina, os mesmos jovens que representam contestação à aliança entre conservadores e yuppies nos EUA agora saem às ruas, reivindicando pura e simplesmente, como os indignados espanhóis, uma democracia real, isto é, não governada por corporações (a plutocracia norte-americana).

Recebem, em resposta, repressão policial do Estado. Ontem 700 pessoas foram presas durante os protestos. Nisso, não se ouve nenhuma resposta convincente de que algo novo possa vir do Estado para esse movimento que diz: “somos os 99%”. Até agora, apenas repressão. Estado que é governado por quem? Um nanico chamado Barack Obama.

20 DE SETEMBRO

Povo que não tem virtude acaba por ser escravo?

  • Se o povo que não tem virtude acaba por ser escravo, isso significa que o povo escravizador tem virtude?
  • Se o povo que não tem virtude acaba por ser escravo, isso significa que ele é escravo por não ter virtude, ou seja, que merece ser escravo?
  • Se o povo que não tem virtude acaba por ser escravo, isso significa que cabe a nós lutarmos contra a nossa escravização, e não contra a escravidão em si?

AGENDA

Enquanto não vem o próximo post, oportunidades de diálogo ao vivo nos próximos dias na terrinha para os interessados em ouvir este escriba:

- 16/09, a partir das 19h – na Escola Superior da Advocacia, falando sobre “Justiça Restaurativa: da ruptura com a violência burocrática ao sentido material de justiça”;

- 23/09, a partir das 18h – na UFRGS, falando sobre “Em Busca da uma Juventude Sônica: estética do ruído e dissonâncias contemporâneas”, com lançamento do nosso livro “Criminologia Cultural e Rock“, pela Lumen Juris;

- 26/09, a partir das 19h – na PUCRS, falando sobre “Derrida e Agamben: anarquismo, messianismo e utopia”.

SUGESTÃO INTERROMPIDA

 

Cenário: mundo acabando, hecatombe, ar irrespirável, calor sufocante, pessoas correm por todos os lados buscando abrigo.

 

Centristas: “calma, vamos procurar uma solução que não seja radical e possa acalmar os dois lados”…

 

REFÉM DAS OLIGARQUIAS

Tenho acompanhado sem interesse algum as notícias sobre corrupção e o enfrentamento da Presidenta Dilma no tema. As notícias trafegam no noticiário e os mesmos clichês são repetidos a todos instantes. A imprensa mantém o tom ambíguo costumeiro, isto é, censura o governo simultaneamente por romper e não romper com aliados. Se rompe, é tratado como derrotado por “perder a base”. Se não rompe, compactua com a corrupção. Nos dois casos a imprensa nunca perde e o governo nunca ganha. Estratégia poderosa que subsiste como último reduto da oposição brasileira, o udenismo. Infelizmente, como não temos oposição capaz de se assumir conservadora ou liberal, preferindo se esconder sob os rótulos de “social-democrata” (!) e “democrata”, resta aos opositores do governo o moralismo rasteiro e casuísta, morada habitual da hipocrisia política fortemente enraizada na história brasileira. Apesar de tudo, Dilma continua com altíssimos índices de aprovação, pois a estratégia só funciona ocasionalmente e não é suficiente para enfrentar as importantes reformas sociais que vêm sendo efetivadas, além da auto-estima do brasileiro alimentada desde Lula.

O que, no entanto, está em jogo? Tenho insistido há muito tempo que a moralização da política é um escamoteamento casuísta que omite por meio do sacrifício de bodes expiatórios a principal fonte de corrupção: o domínio de oligarquias sobre a esfera pública. É um debate bem vivo na blogosfera, citando entre tantos ótimos blogueiros que postaram sobre o tema o Idelber Avelar e o Alexandre Nodari. Na minha visão há um deslocamento para o nível individual e de caráter de uma patologia que extravaza para o nível político, consubstanciado nessa violência que impera mediante chantagens, artimanhas, ameaças e violência cujos limites nem sequer podemos imaginar, chegando a um nível de estado de exceção.

Dilma nesse momento é vítima de uma máfia que se apoderou do poder, como em geral acontece nas democracias contemporâneas espalhadas pelo mundo. A pureza de um Parlamento capaz de representar os cidadãos dá lugar a poderosos grupos de interesses que, no caso do Brasil, oscilam entre oligarquias arcaicas e yuppies e se mantêm com base na mais frontal indiferença a tudo aquilo que não significa sua manutenção no poder. A mídia não representa esperança aqui, pois muitas vezes compactua com tais grupos, não deseja os enfrentar ou inclusive pertence a eles. Além disso, prefere individualizar e sacrificar, não tocando na estrutura de fundo que viabiliza no Brasil a manutenção sincrética de uma ideia liberal-democrática e uma realidade arcaico-feudal-oligárquica. Ninguém melhor que o PMDB sintetiza esse espaço.

Que fazer? As soluções parecem quase todas ruins, pois na realidade o que se observa é o declínio da representação parlamentar como um todo. Como diz Thom Yorke numa canção, “they don’t speak for us”. A defesa da democracia representativa contra a democracia direta – e tudo que dela se aproxima – revela um elitismo que no fundo nada mais faz do que consolidar a situação real em que vivemos no mundo: uma plutocracia generalizada, variando suas colorações de acordo com país e cultura. Pensar a política, aparentemente, parece exigir capaz vez mais pensar em alternativas à democracia representativa e parlamentar, sem cair em autoritarismos e demagogia, pois o mal parece estar na raiz. Isso significa talvez a necessidade de se repensar a própria questão do Estado.

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