“CRITICAR É FÁCIL” – A APOLOGIA DA ESTUPIDEZ

Qualquer chavão que possa servir como instrumento retórico para qualquer coisa prova por esse exato motivo sua completa inutilidade. Um dos mais comuns no cotidiano é: “criticar é fácil!”. Com essa frase estúpida, os críticos são silenciados mediante um golpe de violência bruta, aquela que sequer reivindica para si a possibilidade de ter razão, mas simplesmente estanca o debate, paralisa afirmando o status quo. Nada pode ser mais tosco que essa manobra.

É óbvio que tecer comentários negativos sobre alguma coisa é algo de fácil acesso. Difícil é realmente acertar a crítica, ou seja, atingir o ponto em que realmente está situado o problema. Essa precisão não é tarefa simples e geralmente os boçais que gostariam de encerrar o debate estão ansiosos por neutralizá-la. Mas, para se chegar a um ponto crítico relevante, é necessário que não se esteja oprimido por qualquer positividade ou compromisso. A crítica não observa limites, pois toda tentativa de a limitar acaba obscurecendo o fundamental que se quer agarrar com a crítica. Não existe positividade que valha a pena sem que ela possa, em si mesma, carregar o fermento da sua desconstrução. Posturas sem autocrítica constituem a atrocidade do dogmatismo e engessamentos críticos pela assunção de compromissos pragmáticos acabam levando ao mesmo lugar. Esse lugar é a mesmice da naturalização do mundo, o maior veneno que pode existir para o pensamento.

Sem a crítica indócil, rasgante, seminal, onde estaríamos, senão estagnados no mesmo lugar e na mesma opacidade naturalizada? A crítica é o que possibilita o positivo, é o que previne da afirmatividade ingênua ou naturalizante. O problema não é dizer: “nesse ponto se encerra a crítica!”, atitude estúpida, mas distinguir entre as críticas corretas e as erradas, que são as que mais proliferam. O Bolsa-Família teve milhares de “críticos” que o concebiam como aval para a vagabundagem (antes fosse…); devemos opôr a eles um: “criticar é fácil!”? Claro que não, é preciso mostrar que sua crítica é completamente equivocada, que o caminho está completamente invertido. O sistema penal tem críticos à esquerda e à direita, é preciso paralisar as críticas em nome de um pragmatismo consensual? Não, é preciso mostrar que os expansionistas estão errados, que o problema da violência nem é tocado pelo sistema penal, antes reproduzido, é preciso perceber o que é realmente ser crítico em relação ao sistema penal.

De agora em diante, “criticar é fácil”, para efeitos desse blog, vira uma certidão de burrice cifrada, pois nada é mais fácil do que não criticar.

CHRISTOPH TÜRCKE, “FILOSOFIA DO SONHO”

Recomendado pelo Prof. Hans-George Flickinger, esse interessantíssimo livro de Christoph Türcke foi o primeiro livro que devorei esse ano de 2011. Türcke enquadra-se na tradição da primeira geração da Escola de Frankfurt, sendo pleno de ressonâncias de Adorno, Horkheimer e Benjamin. No entanto, o que pesa mais na sua obra é propriamente Freud. Propondo uma psicanálise ampliada à filosofia ou filosofia que se deixa tomar pela psicanálise, Türcke procura escavar as raízes do pensamento humano a partir do sonho enquanto resíduo da “pré-história do pensamento”. Seu método é arqueológico e estrutural (não estruturalista), ou seja, busca partir dos fatos históricos, e não da abstração metafísica, para pensar sonho, pensamento, linguagem, palavra. Aproveita o conhecimento científico da paleontologia, arqueologia e outras ciências para tentar especular acerca dos eventos que levaram à hominização como tal. Por essa razão, se tivéssemos que etiquetar em qual área está o livro, eu classificaria na antropologia filosófica.

Türcke vê na Interpretação dos Sonhos de Freud uma chave para o surgimento do pensamento. A partir das operações de condensação, deslocamento e inversão, típicas do sonho, ele identifica as raízes do processo que levou o animal humano ao seu estado atual. Para tanto, evita a definição de pulsão como “fronteira entre físico e psíquico” e se prende, ao contrário, na questão da descarga de estímulos: um organismo busca descarregar tensões. O elemento central da pulsão é, por isso, a “compulsão à repetição”, que viabiliza – mediante condensação, deslocamento e inversão – ao hominídeo amenizar o “susto da natureza”, numa espécie de domesticação pela repetição suavizadora. Assim, em sequência o “susto” é concentrado no sacrifício humano, para em seguida dirigir-se aos animais e finalmente aos seres brutos. Com essas operações, gradualmente a dimensão de pensamento – que no início é coletiva (ou melhor, o coletivo é indissociável do individual) – vai se “internalizando”, formando o “espaço mental”. Assim Türcke, um materialista convicto, define o surgimento do espírito.

Para além disso, chama atenção a capacidade de Türcke movimentar-se em todas as correntes da filosofia (em um tempo no qual basta etiquetar um rótulo – p.ex., pós-moderno – para que as discussões de dêem por encerradas), de um lado, e seu método anti-metafísico (ou anti-onto-teológico, se quiseremos assim), por outro. Evitando as abstrações, Türcke desenha um quadro filosófico completo que, se é questionável, tem o inequívoco mérito de apontar a um caminho inevitável de pesquisa em antropologia filosófica: falar do humano é sempre falar de história de algo que se fez humano, e não de um ser cuja gota divina caiu sobre sua cabeça.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.