QUESTÃO AMBIENTAL NÃO É SETORIAL
maio 25, 2011 11 Comentários
O pior erro que se pode cometer em pleno século XXI é acreditar que a questão ambiental é algo setorial. A mídia e quase todos os políticos brasileiros tratam a questão como se fosse “coisa de ambientalista”, como quem se barganha com um grupo corporativo. Assim, há uma suposta saudável proposta de “conciliação” entre ruralistas e ambientalistas.
A imagem está totalmente distorcida porque escamoteia as reais forças políticas que estão em jogo. Elas atravessam não apenas a questão das florestas – como está em jogo na estúpida reforma do Código Florestal – mas do próprio espaço urbano. O que está em pauta é nada menos que nossas próprias formas-de-vida e sua arquitetura fundamental.
Olhando nosso espaço urbano, há visivelmente dois modelos em oposição.
De um lado, o modelo-Dubai, baseado na construção de arranha-céus, na exibição do concreto e no carro como figura privilegiada na cidade, para a qual giram obras viárias, proliferam estacionamentos, explodem as vendas. Modelo da sociedade do espetáculo e do consumo onde a subjetividade é constituída por meio de uma produção serial em massa, forjando sua estrutura a partir de objetos exteriores e descartáveis, programados para a obsolescência quase instantânea. Formado, além disso, pelo condomínio fechado e os parques artificiais, devidamente higienizados de qualquer pobreza e hermeticamente protegidos por um aparato bélico de segurança. Modelo dos shopping certers, dos espaços “espinhosos”, das câmaras de vigilância, do modismo yuppie de caminhonetes e red bull, do marketing e da “arte de guerra” como ética. Nesse espaço retumbantemente uniforme, evidentemente a ideia é cobrir todo verde que remete ao “primitivo” de algo “produtivo”, de preferência se esse novo verde for as “verdinhas”. Asfalto ou monocultura. Nada de errado, segundo essa lógica, uma vez que ela é tauto-lógica, isto é, se retroalimenta, se justifica em si mesma: produzir é bom porque produzir é bom.
De outro lado, as tentativas de pensar o espaço urbano de forma mais coletiva e plural. Prédios menores, privilégio do sol unicamente, parques abertos, elogio da multiplicidade, espaço convidativo a ciclistas, transporte público confortável e eficiente, restrição do uso de carros, valorização dos espaços na rua para todos, convivência com a diferença. Pessoas que vivem uma vida mais leve, sem a necessidade obsessiva do enriquecimento, sem trabalhar como máquinas, priorizando suas relações de amizade e amor, interessadas no pensamento crítico, mas também na diversão hiperbólica. Convite a repensar a vida, inclusive mediante valores como a solidariedade e a justiça, ridicularizados pela hegemonia yuppie que cruelmente as associa à piedade cristã. Na área florestal, preservar a diversidade, a riqueza da diferença e do múltiplo que se fez natureza, produzir alimentos pela qualidade antes da quantidade, uma vez que o problema não é há muito tempo falta de alimentos, mas sim da sua distribuição justa. Respeito, acolhimento e aprendizado com outras formas-de-vida, por exemplo a indígena, que tanto tem a nos ensinar para quem já superou, pelo menos em certo sentido, o binômio barbárie-civilização. Hospitalidade com a alteridade que se manifesta não apenas no outro-humano, mas nos animais, nas plantas, nas coisas.
Para quem acha a distinção forçada, só posso dar a prova da minha própria experiência pessoal: conheço gente dos dois estilos, visitei lugares que espelham um e outro modelo.
Nenhuma luta é mais política que essa: luta entre formas-de-vida que são quase incompatíveis, uma vez que a vida yuppie quer cobrir de cinza o mundo para encher de verde o seu bolso. Para onde vou, percebo em todas as cidades a tendência que apenas confirma a plutocracia no lugar da democracia: governantes vendidos que autorizam obras indecentes, vendem espaços públicos, cobrem paisagens de concreto e fecham áreas que deveriam ser do coletivo, ou seja, de ninguém (exatamente isso está em jogo na questão das licenças serem transferidas para esfera do Estado-membro). A questão verde não é apenas questão de proteção da Amazônia e da preservação das baleias – é também isso - mas é a luta propriamente das formas-de-vida da nossa época.
Infelizmente o PT – partido que nos governa – ainda não achou lugar aí. Enquanto a burocracia está interessada no Modelo Chinês – crescer a qualquer custo, usando as estratégias da sociedade de consumo contra as próprias elites, mas sem enfrentamento direto – boa parte da base petista, o resíduo que ficou depois de tudo que passou, tem consciência dessas questões e pressiona internamente. É mais por cálculo maquiavélico do que por ideal que a burocracia petista ainda põe a questão. Infelizmente. De minha parte, já desisti há tempos do PT. Para quem ainda está nas tensões internas do partido, desejo que logre sucesso na empreitada de reposicionar o partido de forma a se contrapor ao projeto do concreto.
Aconteceu no Canadá, em resposta a um policial estúpido que declarou para evitar assédios sexuais que as mulheres deveriam deixar de se vestir como “sluts” (traduzido pela grande mídia moralista como “vagabundas”, mas melhor ficaria “putas” – advertência procedente de @tuliavianna no twitter), a
Uma das observações mais importantes que tive oportunidade de ouvir na palestra
Samuel Huntington ficou conhecido como autor de Clash of Civilizations, o “Choque de Civilizações”. Autor identificado com os neocons norte-americanos e bastante útil como fonte na Guerra ao Terror promovida por George W. Bush, já deveria ter caído na irrelevância, não fosse certa insistência de alguns em etiquetar como “pós-moderno relativista” tudo aquilo que se opõe ao violento etnocentrismo ocidental.
Não resta dúvida que vivemos na época do declínio de toda e qualquer autoridade. De certa forma, a cultura punk mergulhou tão profundamente no nosso imaginário social que, realmente, a juventude não reconhece mais autoridades quaisquer. As demandas desesperadas do neoconservadorismo que impregna os jornais cotidianos não passam de gritos desesperados por um tempo que passou, como, aliás, é típico dos “neos” (todo “neo” traz junto consigo uma crosta de decadência). Ora, o problema aqui não é a decadência da autoridade, mas de toda e qualquer autoridade.
O velho sábio não é o velho ranzinza, mas o velho contador de estórias. Sabemos disso intuitivamente e pelo trato cotidiano. O velho ranzinza não tem nada a dizer: a única coisa que sabe fazer é justamente tornar a convivência mais e mais insuportável por meio de uma infinita e implacável imposição de regras. Tudo que o velho ranzinza sabe fazer é reclamar da ausência de cumprimento dessas regras – muitas vezes contra o bom senso – e importunar pela sua efetivação. O velho contador de estórias, ao contrário, é o que geralmente gargalha diante da violação da regra, que sabe ser coisa “da idade” e engata uma curiosa estória diante da situação, tornando a convivência mais leve e agradável.



