CONTRA OS PARTIDOS PELA POLÍTICA (SOBRE FHC E A CRÍTICA À GUERRA ÀS DROGAS)
junho 2, 2011 5 Comentários
A maior burrice que poderíamos fazer agora seria deixar de apoiar os movimentos crescentes que Fernando Henrique Cardoso faz em direção a uma revisão da política de drogas por razões partidárias. Parece evidente que FHC está realizando um movimento estritamente político-estratégico, e não por convicção plena. Seu espírito tucano não lhe permitiria ver além do horizonte tecnocrático que caracteriza seu partido orgulhoso pelos seus “gerentes”. No intuito de reposicionar o PSDB ao centro – após a forte guinada à direita nas Eleições 2010 que levaram, por exemplo, Bresser-Pereira a deixar o partido – FHC apela a uma bandeira “liberal” e capaz de provocar estardalhaço, deixando simultaneamente ruborizados os petistas que marcaram o início da gestão de política criminal pela demissão de Pedro Abramovay. Não esqueçamos que Serra volta e meia reivindicava estar “à esquerda” do PT pelas suas posições econômicas. Na política criminal, contudo, nada poderia ser mais bizarro, à medida que é característica do PSDB exatamente a identificação com a “Tolerância Zero”, a pouca fiscalização sobre a observância dos direitos humanos pela polícia e o hiperencarceramento.
Apesar de tudo isso, FHC assumiu uma posição necessária diante de um contexto em que os discursos críticos são veementemente bloqueados, quiçá pela violência física, tal como ocorreu com a Marcha da Maconha e de todos os boçais – juristas ou não – que querem a proibir. Esses covardes que atacam a juventude descontente com o proibicionismo e seus efeitos nefastos são incapazes de agir contra o ex-Presidente, apesar de o caso ser o mesmo. É um tabu infernal cuja impossibilidade de questionar é exatamente o sintoma da sua fragilidade (como sempre, aliás). Nesse caso, a jogada política de FHC é realmente de mestre: se conseguir mudar a tendência da opinião pública, terá se recapitalizado politicamente e arremessado a esquerda para o lado conservador, impossibilitando-a de uma resposta contrária sob pena de descontentar grande parte do seu eleitorado. FHC fala a um eleitorado de perfil conservador, tendo que por vezes abrandar o discurso e repetir abobrinhas do tipo “devemos não penalizar, mas tratar o usuário” (como se todo usuário fosse usuário problemático), além de não tocar na questão essencial do tráfico, que não se resolve satisfatoriamente pela mera descriminalização do porte e uso para fins pessoais. Contudo, provoca uma rachadura nessa estrutura maciça que hoje comanda o Ocidente – a “War on Drugs” dos puritanos norte-americanos exportada para o resto do mundo. Isso já é suficiente.
Estratégia política brilhante pois coloca, como já disse, o PT numa sinuca-de-bico: ou se volta para o lado conservador, desagradando parte do seu eleitorado, ou o acompanha, recapitalizando FHC. Por que o PT caiu nessa armadilha? É simples, meus amigos: porque se comporta como a direita. No lugar de ouvir as vozes mais críticas da sociedade, questionando a fragilidade dos discursos conservadores hegemônicos, o PT se entrega permanentemente ao desejo de poder, conciliando todos os pólos numa salada cujas contradições não tardarão a aparecer. O PT é escravo da Realpolitik, do pragmatismo cujo símbolo é o PMDB. É um retrato pálido dos partidos social-democratas europeus que hoje são vaiados pela juventude do Toma La Plaza, esgotados no seu discurso envergonhado e incapazes de enfrentar o fascismo – quer dizer, de fazer política. O petismo pensa com a cabeça do século XX: é preciso imitar os social-democratas e, depois que chegarmos lá, pensamos no que vamos fazer. O PT governa para a “família brasileira” cujos preconceitos deveria democraticamente ajudar a desconstruir. É fácil, nesse caso, atacá-lo: basta usar a inteligência. E FHC não é burro. Nem nós.





O PT é semi-esquerda, no sentido em que Mendeleiev diz semi-metal: se é condutor, não faz liga; se faz liga, não conduz. Se comporta ora como metal, ora como ametal.
Isso não quer dizer que o PT seja “de centro” – embora ele tenha se transformado hoje, nacionalmente no “PMDB do PMDB”. E não por falta de aviso interno: o Governador da Bahia, Jaques Wagner, disse ao limite da rouquidão que eleger Dilma “a qualquer custo” (inclusive passando por cima dele com a idéia oligofrênica de “dois palanques” na Bahia, um deles do derrotado em terceiro lugar Geddel Suíno Vieira Lima) seria uma Vitória de Pirro.
E está sendo.
Concordo inteiramente. Embora seja uma posição igualmente pragmática.
Excelente análise, Moysés! Bem que tu podias ter uma coluna na Folha como analista político, né? (tô brincando, mas que ia melhorar anos luz o nível das análises, ia.). Beijos e daqui a pouco estamos ai para papear ao vivo!
E o FHC faz um movimento que antecipa um possível Xeque. De fato, o PT perdeu grande chance de adiantar seu jogo. Mas não penso em partido, penso em democracia, por tanto faço minhas as suas palavras sobre o PT em:
“Por que o PT caiu nessa armadilha? É simples, meus amigos: porque se comporta como a direita. No lugar de ouvir as vozes mais críticas da sociedade, questionando a fragilidade dos discursos conservadores hegemônicos, o PT se entrega permanentemente ao desejo de poder, conciliando todos os pólos numa salada cujas contradições não tardarão a aparecer”.
Isto foi perfeito!
Conversei nessa semana com o Ministro Chefe (interino) da Secretaria de Direitos Humanos, Sr. Ramaís de Castro Silveira (tu vê só) sobre esse assunto e aparentemente há uma análise idêntica à tua internamente no PT. Preocupam-se com essa inversão: perdendo campo, o FHC começa a pautar temas antigamente tidos como da esquerda. Quando eu militava todos os filiados (sem exceção) tinham a bandeira da descriminalização, sendo que até tinha um grupo temático de discussões a respeito de psicotrópicos e de indagações acerca de como reconhecer como movimento contracultural e legitimar a prática. O problema é que, em nome da governabilidade, setores absurdamente conservadores são aliados do governo (ex. igreja evangélica). O governo está moldando (em parte) a ideologia do PT, e não o contrário. Combater a fome e miséria, melhorar serviço público e ampliar acesso a saúde e educação são temas consensuais, pautas de qualquer um. Exemplo prático e alarmante disso é a ADPF da Marcha da Maconha, em que – a (nítido?) contragosto – a Presidência da República, ouvida no processo, opinou pela improcedência da ação. O PT tem de, urgentemente, tomar as rédeas da carroça. O Brizola dizia que não importava quem estava nos vagões se se tem o controle do trem. O PT não tem controle sobre esse trem: é refém dos bandidos conservadores que lhe apontam uma arma e lhe dizem para onde não ir.